Terapia de Reposição Hormonal: Hormônio Engorda?

Autora: Nutricionista Mireile Schüller Alaniz

A questão do peso corporal tem uma grande importância quando a aceitação e comprimento da TRH. De fato, a TRH esta sendo comumente entendida como determinante de aumento de peso. Esta é uma preocupação que representa um grande obstáculo para a aceitação e difusão em longo prazo da TRH, a qual não somente pode aliviar sintomas subjetivos desta fase da vida da mulher, mas também pode prevenir contra o desenvolvimento de doenças futuras como a osteoporose. Estudos recentes têm demonstrado um efeito reverso ao que se acredita atualmente: TRH mostrou-se estar relacionada com diminuição da circunferência do quadril (CQ) e circunferência da cintura (CC), bem como um reduzido índice de massa corporal (IMC), quando comparadas às pacientes que não receberam doses de hormônios na pós-menopausa.

Apesar do risco de câncer de mama ser a principal preocupação das mulheres, sabe-se que a maior incidência de morte em mulheres com mais de 50 anos no Brasil se refere às doenças cardiovasculares, num índice de 53% quando comparado aos 4% do câncer de mama (SOBRAC, 2008).

Alguns consensos têm sido desenvolvidos por sociedades internacionais buscando oferecer diretrizes a respeito da relação da TRH com o risco cardiovascular. Estudos atuais sugerem que os achados díspares podem estar relacionados ao momento da intervenção terapêutica em relação à menopausa. Dentre as recomendações do IMS (International Menopause Society”), usuárias que iniciam a TRH tardiamente podem ter um leve e transiente aumento do risco de eventos coronarianos, considerando ainda que exista relação direta do risco coronariano e a idade da paciente e que a TRH pode aumentar este risco em usuários acima dos sessenta anos de idade (SOBRAC, 2008).

Diversos estudos demonstram o impacto da Terapia de Reposição Hormonal (TRH) nos níveis de leptina, peso corpóreo e composição de gordura corporal em mulheres climatéricas, mostrando resultados positivos frente à utilização desta alternativa. A leptina é um hormônio secretado perifericamente envolvido na regulação do comportamento alimentar e do gasto de energia.

Kristensen K, et al, 1999, acompanharam 267 mulheres pós-menopausa durante 5 anos e observaram que a TRH atenuou em 60% o aumento de massa gorda, principalmente na região abdominal destas mulheres. Sendo este efeito mais pronunciado em mulheres não obesas, em comparação com as obesas.

O aumento do peso corporal, particularmente a distribuição de gordura na região abdominal, é reconhecido como um preditor independente de doença cardiovascular. Esteróides sexuais circulantes podem influenciar a distribuição de gordura corporal e uma tendência para um aumento progressivo do peso corporal é muitas vezes observado durante o climatério. Isto parece estar associado com alterações endócrinas relacionadas à menopausa, a deficiência de estrógeno, ao processo de envelhecimento ou a este conjunto de fatores (Kristensen K, et al, 1999).

O recente estudo de Gambacciani M et al, 2008, fornece evidencias de que a TRH pode moderar o aumento do peso corporal e prevenir a distribuição de gordura corporal central (andróide) observada em mulheres pós-menopausa precoce. Estes autores observaram que mulheres pós-menopausa tendem ao aumento do peso corporal paralelo ao aumento da gordura corporal e mudança na distribuição de gordura corporal.

Burguer et al, 1995 em um amplo estudo transversal, observaram uma tendência para o aumento do IMC durante o período de transição menopáusica. No mesmo ano, Dellangeville et al, mostraram que mulheres pós-menopausas tratadas com TRH combinada, apresentavam IMC mais baixos do que aquelas não-tratadas. Mais recentemente Matthews et al, 2001, estudando a influencia da menopausa e o uso de hormônios no Índice de Massa Corporal (IMC), em uma amostra multi-étnica de meia idade encontraram associação entre o uso de hormônios e o IMC mais baixo. Estes autores concluem que a transição da menopausa afeta o IMC, porem este fator é menos significativo comparado com outras influencias, entre elas a inatividade física. Intervenções para aumentar a atividade física são amplamente recomendadas para prevenir o aumento no tecido adiposo comum na meia idade.

A Associação Brasileira do Climatério, em sua I diretriz sobre a prevenção de doenças cardiovasculares em mulheres climatéricas e a influencia da TRH salienta que quanto maior o controle dos hábitos de vida com redução do número de fatores de risco modificáveis associados, maior é a redução do risco cardiovascular e conseqüentemente das medidas corporais, fortemente relacionadas ao estilo de vida. O Nurses’ Health Study mostrou redução de 80% dos eventos coronarianos em mulheres que modificaram seu estilo de vida.
Além disso, no climatério, há aumento de peso relacionado à redução do metabolismo basal, à redução da atividade física regular, ao aumento na ingestão de alimentos calóricos e à depressão. E a redução de 5 a 10% do peso corporal já estão associados à redução do risco cardiovascular, por afetar favoravelmente os níveis de colesterol, pressão arterial e glicemia (SOBRAC, 2008). 

A TRH não se constitui uma medida isolada e única. Deve fazer parte de uma estratégia global, incluindo além de estilo de vida, também dieta, exercícios, cessação do tabagismo e o consumo de álcool com o objetivo de manter a saúde da mulher na pós menopausa. A TRH deve ser individualizada e ajustada de acordo com os sintomas, as necessidades de prevenção, assim como de acordo com história pessoal, familiar, as preferências da mulher e suas expectativas de vida.

Agosto/2008


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